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Médico indiciado por morte de menino disse à polícia que não sabia protocolo para picada de escorpião: 'Nunca foi passado'

redacao by redacao
12/08/2026
in Últimas Notícias
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Médico indiciado por morte de menino disse à polícia que não sabia protocolo para picada de escorpião: 'Nunca foi passado'
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Médico indiciado por morte de menino não sabia protocolo para picada de escorpião
O médico Augusto Fortunato de Godoi, indiciado pela morte de Bernardo de Lima Mendes, de 3 anos, após ser picado por um escorpião em março deste ano em Conchal (SP), disse, em depoimento à Polícia Civil, que não sabia da existência de um protocolo de atendimento para acidentes com escorpiões em crianças com menos de 10 anos. (Veja abaixo trechos do depoimento).
De acordo com o inquérito da Polícia Civil, Augusto foi indiciado por homicídio culposo — quando não há intenção de matar – após o delegado Luís Henrique Lima Pereira, responsável pela investigação do caso, identificar que os protocolos para o atendimento da criança não foram seguidos.
A defesa do médico informou que há “plena certeza de sua inocência”. (Veja abaixo o posicionamento).
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Interrogatório de médico
Bernardo de Lima Mendes morreu após ser picado por escorpião em Conchal (SP)
Arquivo pessoal
O médico foi interrogado pelo delegado, de forma on-line, em 4 de agosto. Conforme a transcrição do depoimento obtida pelo g1, Augusto afirmou que possui especialização em psiquiatria e estava exercendo a função de plantonista no Hospital Madre Vannini, quando atendeu o Bernardo.
Veja trechos:
👮‍♀️ Delegado: Na visão do senhor, o caso dele era grave quando chegou pro senhor?
👨‍⚕️Médico: Quando chegou, não. […] Ele apresentava só uma reação local, né? A partir do momento que a criança apresentou o episódio de vômito lá na observação, e já levado para emergência, aí a gente já entendeu que esse caso se tratava de um caso grave.
Em seguida, o delegado pergunta se Augusto tinha conhecimento que Bernardo havia sido picado por escorpião e o médico confirma que sim e que o encaminhou para a sala de curativo para acompanhamento e bloqueio anestésico porque a criança relatava muita dor.
👮‍♀️ Delegado: O senhor tem conhecimento técnico do protocolo de casos de picada de escorpião?
👨‍⚕️Médico: O protocolo foi o que foi realizado.
👮‍♀️ Delegado: O senhor é médico, correto?
👨‍⚕️Médico: Sim.
👮‍♀️ Delegado: Existe um protocolo quando existe acidente com escorpião. O senhor sabe como é esse protocolo?
👨‍⚕️Médico: Não, ninguém, nem eu. Trabalho em cinco hospitais, esse protocolo nunca foi passado em nenhum hospital.
👮‍♀️ Delegado: O senhor não tem ciência desse protocolo?
👨‍⚕️Médico: Não.
O delegado questionou se o médico fez contato com a Santa Casa de Araras e ele disse que não, que a orientação é que a solicitação de transferência seja realizada pela Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross).
👨‍⚕️Médico: Não [foi feito contato] direto [de] médico para médico.
👮‍♀️ Delegado: Quando é um caso urgente, o senhor sabe o que é vaga zero?
👨‍⚕️Médico: A vaga zero não é a gente que determina, quem determina é o Cross.
👮‍♀️ Delegado: Mas quando existe um caso de gravidade, o senhor não pode solicitar a vaga zero?
👨‍⚕️Médico: Não, a gente solicita via Cross.
👮‍♀️ Delegado: O senhor solicitou a vaga zero?
👨‍⚕️Médico: Não, eu não solicitei a vaga zero, eu solicitei a transferência da criança.
Em outro momento, o médico afirmou que se Bernardo não tivesse apresentado sintomas mais graves permaneceria em observação no hospital por um período de 12 a 24 horas.
👨‍⚖️ Advogado: Qualquer circunstância que chega no plantão hoje, independente de ser picada de escorpião, os procedimentos que são feitos é avaliação, saturação, medicação para dor? São essas avaliações que vocês fazem?
👨‍⚕️Médico: Esse é o protocolo, né? É avaliar o paciente, a gente, né, entender a situação do paciente que tá ali, medicá-lo, solicitar os exames que forem preciso, que foi o que foi feito.
É, no caso aí desse, do paciente, a gente manter o paciente em observação no hospital, sempre dando total assistência para a criança, né? E a mãe sempre acompanhando também a criança.
No inquérito, o delegado frisou que o interrogatório foi realizado 4 meses após a morte de Bernardo e que o investigado e médico informou que desconhecia o protocolo e que, se não houvesse o agravamento do quadro clínico, a criança seria mantida em observação no hospital.
“Causa perplexidade esta afirmação na medida em que desde então o investigado Augusto, na condição de médico plantonista, não buscou tomar conhecimento do protocolo e insiste na mesma conduta irregular – em manter em observação crianças com acidente por picada de escorpião – fator que culminou com a morte da vítima Bernardo”, defendeu o delegado.
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Além do indiciamento, a investigação solicitou à Justiça o afastamento cautelar do médico Augusto Fortunato de Godoi. Ele não poderia atuar como plantonista e em serviços de urgência e emergência, como hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) até nova decisão judicial. O pedido foi feito porque o profissional afirmou em depoimento que considera que o protocolo médico foi seguido.
O inquérito policial de 16 páginas foi encaminhado ao Ministério Público, que avaliará se aceita a denúncia e se formaliza o pedido de afastamento do médico.
Falha nos protocolos
Delegado aponta erro médico na morte de menino picado por escorpião no interior de SP
Bernardo foi picado por um escorpião no fim de março enquanto estava em casa com os pais. A família levou o menino até a Santa Casa de Conchal em menos de cinco minutos.
De acordo com o delegado responsável pela investigação e os relatórios do Instituto Médico Legal (IML), diretrizes nacionais e estaduais do Ministério da Saúde determinam que qualquer criança com até 10 anos picada por escorpião, mesmo com sintomas leves, deve ser estabilizada e encaminhada imediatamente para um hospital de referência que possua o soro antiescorpiônico — que, no caso da região, é o hospital de Araras (SP).
Também foi apontado atraso na transferência da criança, que deu entrada no Hospital Madre Vannini às 20h08, e o contato formal com o Sistema Cross somente ocorreu às 21h59, mais de duas horas após o acidente com o escorpião.
O laudo relaciona essa demora à perda da chamada “janela terapêutica”, quando a administração do antiveneno é eficaz, e aponta que o médico deveria ter acionado o Samu e informado tratar-se de “vaga zero” por risco iminente de morte.
Segundo o Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof. Alexandre Vranjac”, o grupo mais vulnerável a picadas de escorpião Tityus serrulatus, ou escorpião amarelo, é o das crianças de até 10 anos. O órgão aponta que o primeiro vômito no grupo de risco já caracteriza a necessidade urgente do uso do soroantiveneno.
A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) informa que, nesse grupo, o tratamento precisa ser iniciado em até 1h30 após a picada. O pai de Bernardo relatou que o filho vomitou cerca de dez vezes em apenas 20 minutos e também babava bastante.
“Era um caso de vaga zero, de acionar o Samu e encaminhar essa criança para lá. O médico adotou protocolos que acabou por burocratizar a transferência da criança e o quadro se tornou irreversível. Por conta disso, o médico foi indiciado nesse inquérito policial por homicídio culposo em decorrência da negligência médica que ficou constatada”, afirmou o delegado.
Bernardo de Lima Mendes morreu após ser picado por escorpião em Conchal (SP)
Arquivo pessoal
Segundo a polícia, o médico manteve o garoto em observação em Conchal, contrariando as regras. O quadro clínico do menino se agravou e ele sofreu uma parada cardiorrespiratória e choque cardiogênico, quando o coração perde de repente a capacidade de bombear sangue suficiente para o corpo, devido aos efeitos tóxicos do veneno.
Bernardo foi transferido emergencialmente para Araras, onde recebeu o soro mais de 4 horas após a picada. Contudo, o estado já era irreversível e ele morreu no dia seguinte.
“O próprio IML elaborou um parecer feito por médicos legistas, atestando que houve erro médico na não observância de um protocolo que deveria ter sido adotado em uma criança que sofreu picada de escorpião”, afirmou o delegado.
‘Sentimento de alívio’
Paulo Henrique Mendes Dias, pai do menino Bernardo, fala sobre indiciamento de médico após morte do filho por picada de escorpião em Conchal (SP)
Ely Venancio/EPTV
O pai do Bernardo manifestou um “sentimento de alívio” ao saber que a polícia concluiu o inquérito e indiciou o médico que atendeu seu filho por homicídio culposo.
“É um sentimento de alívio. É muito gratificante ver que um passo foi dado, e um dos passos mais importantes”, afirmou o tatuador Paulo Henrique Mendes Dias.
“O que a gente sempre quis é que a justiça seja feita e que não aconteça com mais ninguém. Principalmente sobre ele [poder] ser afastado, para que não ocorra com outra criança o que ocorreu com o meu filho”, disse o pai do menino.
O que dizem os envolvidos
Em nota, a defesa afirmou que recebeu a notícia do encerramento do inquérito com surpresa pela imprensa e declarou a “tranquilidade” de seu cliente, alegando que ele possui “plena certeza de sua inocência”. O g1 questionou sobre a falta de conhecimento do médico sobre os protocolos, mas a primeira nota da defesa foi mantida.
O Hospital e Maternidade Madre Vannini, de Conchal, onde aconteceu o primeiro atendimento, informou que o médico acionou o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ceatox) quatro vezes durante o atendimento e que solicitou a transferência assim que houve o agravamento do quadro. A unidade pontuou ainda que não tem autorização para manter o estoque do soro no local.
Disse ainda que o inquérito “não reflete o melhor entendimento sobre os fatos e que deixou de considerar vários pontos, desde a regulamentação técnica à cronologia do que aconteceu”. Afirmou também que “uma rigorosa sindicância aberta pela instituição concluiu que o tempo de atendimento foi adequado, assim como todos os protocolos foram seguidos”.
O g1 procurou o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo para falar sobre o indiciamento e se há apuração da conduta do médico, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.
REVEJA OS VÍDEOS DA EPTV:
Veja mais notícias da região no g1 São Carlos e Araraquara

Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2026/08/12/medico-indiciado-por-morte-de-menino-disse-a-policia-que-nao-sabia-protocolo-para-picada-de-escorpiao-nunca-foi-passado.ghtml

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